Posso estar completamente enganado. Mas começo a achar que estamos olhando para a inteligência artificial pelo lugar errado.
Nos últimos dois anos, aprendemos a acompanhar uma corrida quase esportiva. GPT, Claude, Gemini. Um lança um modelo melhor hoje. Outro ultrapassa amanhã. É impressionante e, ao mesmo tempo, cada vez menos importante.
O GPT-6 Astra chegou cercado exatamente por esse tipo de discussão. É o melhor modelo? É o mais inteligente? Estamos finalmente falando de AGI (é a Inteligência Artificial Geral, que um dia vai dominar o mundo)?
Os números divulgados são fortes. O Astra avançou em matemática, ciência, programação, segurança cibernética e, principalmente, no uso direto do computador. Mas minha impressão é que a parte mais importante do lançamento não está nos comparativos.
Está na interface.
Durante décadas, a evolução da computação não aconteceu apenas porque as máquinas ficaram mais potentes. Ela aconteceu quando ficou mais fácil dizer a elas o que queríamos. O DOS exigia comandos. O Windows trouxe o mouse e os ícones. O smartphone levou a lógica para o toque.
Agora podemos estar entrando em outra etapa: a voz.
Falar com computador não é novidade. Siri e Alexa popularizaram a ideia. Só que havia um problema básico: elas ouviam, mas entendiam pouco. Você podia pedir uma música ou ligar uma lâmpada. Era útil, mas limitado. Irritante na maioria das vezes.
Com os novos modelos, isso começa a mudar. A voz deixa de ser apenas uma forma diferente de digitar e passa a funcionar como uma camada de comando. Você fala, a inteligência entende contexto, acessa sistemas, interpreta informações e executa ações.
Pense em um sócio de escritório saindo de uma reunião e dizendo: “registre esse contato no CRM, faça um resumo da conversa, identifique quais áreas podem atender esse cliente, cheque se já temos relacionamento com a empresa e prepare uma mensagem para eu revisar”.
Hoje, isso exige abrir programas, procurar informações, alternar telas, digitar, copiar, colar e organizar. Amanhã, pode ser uma conversa de trinta segundos.
A OpenAI está tentando transformar o ChatGPT de um sistema que responde em um sistema que faz. O Astra pode navegar, trabalhar em softwares, preencher formulários, organizar dados, produzir documentos e executar tarefas mais longas.
E aí aparece o plot twist dessa história.
A OpenAI comprou a empresa de hardware criada por Jony Ive, responsável por boa parte do design dos produtos que definiram a Apple de Steve Jobs. Estamos falando de bilhões de dólares investidos para pensar novos dispositivos.
Não sabemos exatamente o que será lançado. Mas surreal que todo esse investimento exista para criar apenas mais uma tela para colocarmos no bolso.
Se a inteligência artificial consegue ouvir, ver, lembrar, interpretar contexto e operar sistemas, a tela deixa de ser obrigatória em várias situações. Talvez o próximo dispositivo relevante exista justamente para reduzir nossa dependência do smartphone.
A geração atual de tecnologia foi construída ao redor da tela. Sites, aplicativos, publicidade, atendimento, serviços financeiros, sistemas internos, redes sociais. Quase tudo pressupõe uma pessoa olhando para alguma coisa e decidindo onde clicar.
E se essa pessoa simplesmente falar?
Empresas terão de pensar em seus produtos de outra maneira. Um cliente poderá não entrar mais no site para pesquisar uma informação. Poderá perguntar ao seu agente. Talvez diga o que quer e deixe o sistema comparar alternativas.
Para quem trabalha com marketing, isso merece atenção especial. Passamos anos tentando conquistar posições no Google, seguidores, cliques, tempo de tela e tráfego. Tudo isso continua relevante hoje. Mas surge uma pergunta incômoda: o que acontece quando parte da decisão passa a ser intermediada por agentes?
Sua marca precisará continuar sendo encontrada por pessoas. Mas também precisará ser compreendida por sistemas que pesquisam, resumem, recomendam e executam tarefas em nome delas.
No mercado jurídico, o impacto pode ser ainda mais sensível. Um agente capaz de trabalhar em diferentes sistemas poderá organizar documentos, pesquisar informações, acompanhar fluxos, preparar materiais, atualizar CRM e cruzar dados que hoje consomem horas de profissionais.
Quanto mais um agente puder fazer, mais importante será definir o que ele não pode fazer. Quem autoriza acesso a documentos? Quais sistemas ele pode operar? Quando precisa pedir confirmação? Como uma ação será auditada? Quem responde por um erro?
Esse é um dos motivos pelos quais o Astra chama atenção também pelo lado menos confortável. A própria OpenAI reconheceu capacidades avançadas em segurança cibernética e adotou restrições adicionais para determinadas funções. Quanto mais capacidade, mais controle será necessário.
Por isso, talvez seja cedo para dizer que chegamos à AGI. Benchmark não é realidade, e laboratório não é empresa. Modelos continuam errando, precisam de contexto e dependem de infraestrutura, dados e bons limites.
Mas não é cedo para perceber que a conversa mudou. Que o jogo é outro.
Durante algum tempo, usamos inteligência artificial como um lugar para onde levávamos perguntas. Depois começamos a levar arquivos. Agora estamos começando a entregar tarefas.
O próximo passo pode ser parar de ir até a IA.
Ela estará no computador, no celular, no carro, nos fones, em dispositivos que ainda nem sabemos como serão e, principalmente, ouvindo nossa voz.
É por isso que talvez o GPT-6 Astra seja mais importante do que o ranking que ocupa hoje. Daqui a algumas semanas, outro modelo pode superá-lo. Isso já virou rotina.
Quando pedir algo ao computador for tão natural quanto pedir algo a uma pessoa, a disputa não será mais sobre quem tem o chatbot mais inteligente. Será sobre quem construiu a melhor forma de transformar intenção em algo útil.
E, se isso acontecer, talvez o iPhone dos novos tempos não seja exatamente um aparelho.
Pode ser a nossa voz.
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