Como as ferramentas generativas estão mudando, de fato, o jeito de produzir e consumir conhecimento jurídico
A aplicação de modelos de linguagem na rotina jurídica já não é mais uma aposta de futuro, mas um processo em curso, que exige um posicionamento claro e técnico de quem trabalha com Direito. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Manus AI, Genspark e NotebookLM deixaram de ser novidade. Elas estão impactando, na prática, não só a produtividade, mas a forma como advogados e advogadas pesquisam, escrevem, decidem e se posicionam.

Um exemplo que gosto de observar de perto é o recurso chamado “busca profunda”. Ele já aparece nas versões mais avançadas de IA generativa e muda completamente a lógica da pesquisa jurídica tradicional. Essas ferramentas não estão só buscando jurisprudência ou analisando leis. Elas estão cruzando dados, reconhecendo padrões argumentativos e devolvendo respostas moldadas pelo contexto, pela linguagem e pelo objetivo da pergunta, com consistência técnica e, muitas vezes, com estrutura similar a uma peça jurídica.
Enquanto o Gemini responde com rapidez e cumpre bem tarefas urgentes, como resumos ou análises iniciais, o ChatGPT oferece algo mais próximo do que um parecer jurídico exige: tempo, profundidade, articulação argumentativa e fundamentação sólida. Já o Manus AI e o Genspark vão além. Eles são agentes jurídicos que simulam raciocínios com base em parâmetros definidos por área, especialidade, linguagem e complexidade. Estão sendo usados para revisar contratos, responder consultas, produzir peças com base em dados estruturados e até dar suporte em processos de due diligence. E o mais importante: tudo isso com atenção ao português jurídico e à realidade normativa brasileira.
Como consultora em marketing jurídico, vejo de forma muito nítida como isso tudo afeta o modo como os escritórios se comunicam, e não apenas nas redes sociais. Estou falando da forma como se constrói a autoridade digital de um escritório. Conteúdo jurídico nunca foi só texto. Agora, menos ainda. A gente está lidando com um tipo de produção que precisa ser lida e compreendida não só por pessoas, mas por mecanismos automatizados. E isso exige cuidado redobrado com a estrutura do raciocínio, com a escolha das palavras, com a organização da informação.
O NotebookLM, por exemplo, tem ganhado força justamente por isso. Ele permite importar documentos, segmentar dados e cruzar informações com base em hipóteses jurídicas. Ou seja, exige que quem opera a ferramenta saiba construir bons prompts, conheça o assunto e consiga revisar a resposta com critério técnico. Não dá para usar de forma automática, muito menos superficial.
O que observo hoje é que muitos escritórios ainda tratam a IA como uma automação que reduz tempo. Mas o ponto-chave não está só na velocidade. Está em como os dados são organizados, como os argumentos são apresentados e, principalmente, em como essas ferramentas aprendem com as interações. O conteúdo jurídico virou, literalmente, um dado vivo. Ele circula, se adapta, é lido por sistemas que podem ou não entendê-lo como relevante.
Por isso, quando falamos em posicionamento digital, não estamos falando só de site, Instagram ou LinkedIn. Estamos falando sobre como o raciocínio jurídico de um escritório é percebido por outras inteligências, sejam humanas ou artificiais. Isso exige um outro tipo de atenção à linguagem, à técnica e à estratégia.
Adotar IA no jurídico não é só uma questão de inovação. É uma mudança de perspectiva sobre como se constrói autoridade, como se compartilha conhecimento e como se atua de forma ética em um ambiente cada vez mais mediado por tecnologia. E isso, definitivamente, não se aprende em um clique.