No mercado jurídico brasileiro, as restrições éticas da OAB e a forma como o cliente decide contratar um advogado tornam o modelo de campanhas direcionadas para contratação de serviço pouco previsíveis. Em regra, estratégias baseadas em conteúdo, autoridade e relacionamento produzem resultados mais consistentes do que a simples apresentação direta do serviço, principalmente no Direito Empresarial.
A publicidade jurídica é permitida no Brasil, inclusive por meio de mídia paga. O que a legislação e a regulamentação ética fazem é delimitar a forma, o tom e o objetivo da comunicação, evitando práticas comerciais agressivas ou sensacionalistas.
De maneira geral, os principais parâmetros estabelecidos pela OAB são:
Esses critérios não são apenas teóricos. Eles impactam diretamente o desenho das campanhas e explicam por que determinados canais são mais restritivos do que outros.
Um ponto central na estratégia de marketing jurídico é compreender que o meio utilizado influencia a leitura ética da mensagem. A mesma comunicação pode ser aceitável em um canal e inadequada em outro, justamente pelo contexto em que o usuário é impactado.
Dentro dessa lógica, o Provimento nº 205/2021, ainda que de forma indireta, a distinção entre publicidade ativa e publicidade passiva na advocacia. A publicidade passiva ocorre quando o advogado disponibiliza informações e conteúdos para que o interessado os encontre por iniciativa própria, sem estímulo direto à contratação, em dinâmica semelhante ao inbound marketing, baseada em atração, educação e construção de autoridade. Já a publicidade ativa se caracteriza pela abordagem direta do potencial cliente, com estímulo explícito à contratação, aproximando-se do outbound marketing, no qual a mensagem interrompe o usuário a partir de um interesse presumido.
No contexto jurídico, essa distinção é determinante: quanto mais ativa e intrusiva for a comunicação, maior o risco de ser interpretada como captação indevida de clientela; quanto mais passiva, informativa e contextualizada, maior a aderência às diretrizes éticas estabelecidas pela OAB. Assim, não é apenas o conteúdo que define a licitude da publicidade, mas o modo como ela se insere na jornada e na intenção do destinatário.
Vamos explicar cada um desses contextos abaixo:
Em redes sociais e no Google Display, o usuário não está buscando um advogado naquele momento. Ele é impactado pelo anúncio enquanto navega por conteúdos diversos. Por essa razão, esses canais são tratados como meios de abordagem ativa.
Nesses ambientes, a OAB admite apenas:
A venda direta de serviços nesses canais tende a ser interpretada como captação indevida de clientela, especialmente quando há chamadas explícitas à contratação.
Na Rede de Pesquisa do Google, a lógica é distinta. O usuário manifesta uma necessidade concreta ao pesquisar termos relacionados a um serviço jurídico específico, sem que o advogado provoque essa demanda de forma ativa. Essa intenção manifesta coloca o escritório em uma posição mais passiva do ponto de vista publicitário, o que fundamenta uma interpretação mais flexível por parte da OAB.
Nesse contexto, passam a ser admitidos:
Ainda assim, permanecem vedadas promessas de resultado, comparações com outros profissionais e o uso de linguagem comercial excessiva.
Mesmo quando permitida, a venda direta enfrenta uma barreira estrutural que vai além das normas da OAB: o nível de consciência de quem realiza a busca pelo serviço jurídico. Em grande parte dos casos, especialmente quando o público é pessoa física, a intenção por trás da pesquisa não é a contratação imediata, mas a busca por informação, validação ou esclarecimento de dúvidas.
Em áreas mais rotineiras, como o Direito do Trabalho, é comum que o usuário pesquise termos relacionados a “direitos”, “vale a pena processar”, “tenho direito a” ou “posso entrar com ação”. Essa etapa da jornada está muito mais ligada à compreensão da situação do que à decisão de contratar um advogado. Como consequência, campanhas de venda direta acabam atraindo um volume elevado de contatos que buscam apenas orientação inicial, ocupando o tempo do setor comercial ou do atendimento jurídico sem gerar retorno proporcional em contratações.
Nesse cenário, o gargalo não está no tráfego, mas na intenção da busca. O anúncio responde a uma dúvida legítima, porém prematura do ponto de vista comercial.
Quando o foco se desloca para serviços jurídicos voltados a empresas, o cenário muda, mas não se torna necessariamente mais simples. O nível de consciência do potencial cliente tende a ser mais alto. Em regra, quem busca uma solução jurídica empresarial já entende o problema, conhece os riscos envolvidos e reconhece a necessidade de assessoria especializada. No entanto, surgem outras barreiras relevantes.
Entre os principais obstáculos nesse contexto estão:
Assim, enquanto na pessoa física a dificuldade está na baixa maturidade da demanda, no mercado empresarial o desafio é romper uma barreira de confiança já estabelecida. Em ambos os casos, um anúncio isolado dificilmente consegue resolver essas fricções. Por isso, campanhas de venda direta tendem a gerar leads em quantidade, mas com baixo índice de conversão efetiva, seja por falta de prontidão para contratar, seja por ausência de autoridade percebida suficiente para substituir.
Nutrir o relacionamento com os leads é a grande solução do marketing jurídico e, por isso, o conteúdo cumpre um papel tal importante nesta atuação. Por exemplo, veiculado via marketing direto em newsletter e, de forma ainda mais efetiva, convites para eventos presenciais, quando o principal desafio é o fomenta da confiança percebida.
Aplicar ao Direito a mesma lógica de mercados como e-commerce, tecnologia ou serviços de baixo risco costuma gerar frustração. Nesses setores, o consumidor aceita testar, errar e trocar. No jurídico, o custo do erro é alto.
Enquanto outros mercados priorizam preço, oferta e velocidade, o mercado jurídico valoriza:
Ignorar essa diferença é um dos principais motivos de insucesso em campanhas patrocinadas de venda direta.
Apesar das limitações, existem cenários em que a venda direta pode apresentar resultados acima da média. Esses casos geralmente reúnem algumas características específicas.
Serviços com maior potencial costumam ser:
Exemplos comuns incluem fraudes bancárias recentes, denúncias criminais, prisões em flagrante delito, autos infração fiscais, golpes digitais amplamente divulgados ou revisões de benefícios após mudanças normativas. Nesses contextos, a urgência reduz o tempo de decisão e torna o primeiro contato mais direto.
O que vale sempre ponderar, contudo, é a relação entre a importância da demanda jurídica e o nível de honorário advocatício pretendido. Como exemplo, existem autuações fiscais com valores menores que o honorário do advogado que representaria o contribuinte precisaria pagar ao Fisco, tornando o serviço desinteressante para o advogado.
Para a maior parte das áreas do Direito, a estratégia mais consistente não é a venda imediata, mas a construção progressiva da decisão. Isso envolve preparar o potencial cliente antes de apresentar o serviço.
Na prática, esse modelo costuma seguir uma lógica como:
Esse processo respeita tanto o comportamento do cliente jurídico quanto as normas éticas da OAB.
Marketing jurídico não é uma simples adaptação do marketing digital tradicional. Ele exige conhecimento técnico das normas éticas, leitura estratégica dos canais e compreensão profunda da jornada do cliente.
Um profissional especializado em marketing jurídico atua para:
Sem esse cuidado, é comum desperdiçar orçamento e comprometer resultados.
Por fim, campanhas patrocinadas de venda direta podem funcionar no mercado jurídico, mas são exceções condicionadas a contexto, urgência e tipo de serviço. Na maioria dos casos, estratégias baseadas em conteúdo, relacionamento e autoridade oferecem resultados mais previsíveis e sustentáveis.
Compreender as limitações da OAB e respeitar a lógica própria da contratação jurídica é essencial para transformar marketing em resultado, sem colocar em risco a reputação profissional.
Por isso pode-se dizer que o marketing jurídico não é um “botão de compra”.
Juliano Trevisan é especialista em Performance e Inovação da LETS Marketing, bacharel em Direito e profissional com 13 anos de experiência em marketing digital e tráfego pago.
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