A inteligência artificial escreve textos, revisa documentos, escreve petições, organiza planilhas, produz layouts, registra atas e ajuda a controlar processos. E, ainda, faz tudo isso em uma velocidade que, há poucos anos, parecia improvável.
No mercado jurídico, marcado por grande volume de informação, precisão e pressão por eficiência, seu potencial é evidente, e a tecnologia reduz tarefas repetitivas, amplia a capacidade de análise e libera tempo para atividades estratégicas.
Essa transformação já está avançando rapidamente no setor jurídico, pois, de acordo com o relatório AI in Professional Services 2026, da Thomson Reuters, multinacional de tecnologia e informação que fornece softwares, dados e serviços especializados, 41% dos escritórios de advocacia e 47% dos departamentos jurídicos corporativos afirmaram que suas equipes já utilizavam inteligência artificial generativa. Em 2025, esses percentuais eram de 28% e 23%, respectivamente.
Mas uma pergunta precisa acompanhar essa evolução “quando a entrega exige confiança, presença e relacionamento, o que ainda depende de uma pessoa?”.
Um e-mail criado por IA pode ser claro e correto, o relatório pode chegar bem estruturado, e o prompt detalhado pode gerar uma entrega impecável. Mas, ainda assim, a ferramenta não conhece, sozinha, a história da relação.
As novas ferramentas e tecnologias não sabem que determinado cliente prefere receber um áudio porque precisa sentir segurança antes de decidir. Pode não perceber que uma resposta objetiva demais é sinônimo de distanciamento, nem entende, sem contexto, que um prospect precisa ser acolhido antes de receber uma proposta ou que um sócio quer conversar porque ainda não conseguiu organizar a própria dúvida.
A IA responde ao que foi solicitado, mas são as pessoas que percebem o que não foi dito.
No mercado jurídico, confiança não nasce apenas da qualidade técnica, pois também é construída pela sensação de saber com quem se está falando e pela segurança de que existe alguém capaz de compreender o contexto antes de oferecer uma solução.
Muitas vezes, o cliente não quer uma simples resposta, quer ligar, explicar o que aconteceu e perceber se o outro entendeu o peso daquela situação.
Mesmo a ferramenta mais avançada depende de direção.
Alguém precisa decidir o que perguntar, quais informações oferecer, qual tom utilizar, quais limites respeitar e como avaliar o resultado. Um prompt pode ser tecnicamente bem construído, mas só será útil se quem o escreveu souber o que importa naquela relação.
É o olhar humano que identifica que uma palavra pode gerar ruído, que uma recomendação precisa ser mais cuidadosa ou que determinado caminho, embora correto, não combina com o perfil do cliente.
Também é esse olhar que percebe quando um e-mail não é suficiente e que há situações em que um áudio aproxima. Em outras, uma ligação é indispensável e, em muitos momentos, é preciso explicar o raciocínio, ouvir a reação e rever a rota em tempo real.
A tecnologia pode produzir o material, mas somos nós quem decidimos como ele chega ao cliente.
Na LETS Marketing, a inteligência artificial integra uma busca contínua por processos mais eficientes e, por isso, mantemos encontros recorrentes de inovação, compartilhando aprendizados entre os times e testando aplicações para problemas reais.
Essa troca de conhecimento é benéfica para muito além da adoção de novas ferramentas. Segundo Hilgers (2024), com base no Workplace Learning Report do LinkedIn, empresas com uma cultura forte de aprendizagem apresentam retenção de profissionais 57% maior e mobilidade interna 23% superior às organizações em que o aprendizado é menos desenvolvido. Nesse sentido, criar espaços para testar, discutir e compartilhar descobertas ajuda a transformar experiências individuais em capacidade coletiva.
O objetivo não é retirar das pessoas a responsabilidade pelo trabalho, e sim liberar tempo e energia para aquilo que exige repertório, contexto, sensibilidade e decisão.
Por isso, os resultados passam pela avaliação do time: a equipe verifica se o conteúdo está correto, se corresponde ao momento do cliente, se respeita o posicionamento e se melhora a entrega. A IA ajuda a acelerar, mas as pessoas continuam responsáveis por pensar.
Esse cuidado é especialmente importante no marketing jurídico: um texto pode estar bem escrito e não refletir a voz de um escritório. A análise pode estar organizada e ignorar o momento do cliente. Uma comunicação pode ser correta e, ainda assim, inadequada à relação.
Inovar não é adotar a ferramenta mais recente, mas saber onde ela agrega valor, quais riscos precisam ser observados e quando a presença humana não pode ser substituída.
A inteligência artificial pode sugerir uma mensagem de celebração, mas não vibra com o cliente quando um projeto dá certo. Pode reproduzir uma linguagem empática, mas não sente a responsabilidade de acolher alguém que está inseguro ou prestes a tomar uma decisão que será um divisor de águas.
Relacionamentos são construídos por pequenos sinais: lembrar de uma conversa anterior, reconhecer uma preocupação, adaptar o tom, saber a hora de ligar.
Essas interações nem sempre aparecem em uma planilha de produtividade, mas influenciam contratos, indicações, continuidade e reputação. No mercado jurídico, principalmente, essa presença tem valor estratégico.
Criticar a inteligência artificial seria ignorar tudo o que ela já permite fazer melhor e, por isso, a questão não é escolher entre eficiência e humanidade. O desafio é permitir que a IA faça aquilo que executa melhor, enquanto as pessoas preservam o que nenhuma automação deveria esvaziar: julgamento, responsabilidade, acolhimento, criatividade, escuta e capacidade de criar confiança.
Talvez o futuro não pertença às empresas que mais automatizarem, mas àquelas que souberem usar a tecnologia sem tornar suas relações automáticas.
A inteligência artificial pode escrever o texto, revisar o e-mail, montar o layout e organizar o processo, mas ainda é uma pessoa que transforma uma boa entrega em uma relação que vale a pena continuar.
Referências
RICHTER, Marjorie. How AI is reshaping the legal profession. Thomson Reuters Legal, 2 jul. 2026. Disponível em: https://legal.thomsonreuters.com/blog/how-ai-is-transforming-the-legal-profession/
THOMSON REUTERS INSTITUTE. 2026 AI in Professional Services Report: GenAI is here, agentic AI is coming — and business model shifts are next. [S. l.]: Thomson Reuters, 2026. 25 p. Disponível em: https://www.thomsonreuters.com/content/dam/ewp-m/documents/thomsonreuters/en/pdf/reports/2026-ai-in-professional-services-report.pdf
HILGERS, Laura. 3 key ways learning benefits the business. LinkedIn Talent Blog, 9 abr. 2024. Disponível em: https://www.linkedin.com/business/talent/blog/learning-and-development/3-key-ways-learning-benefits-the-business
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