A IA na Advocacia já não é uma promessa distante. Ela entrou na rotina dos escritórios, dos profissionais autônomos e das bancas que buscam ganhar produtividade em tarefas que sempre consumiram muitas horas de trabalho. A pesquisa “Uso de IA na Advocacia”, realizada pela AASP, mostra a dimensão dessa mudança: 87,4% dos respondentes já utilizam alguma ferramenta de inteligência artificial no exercício profissional, e 62,1% afirmam usar esses recursos regularmente.
Esse dado deveria encerrar uma discussão e abrir outra. Não faz mais sentido perguntar se a IA será usada no Direito. Ela já está sendo usada. A pergunta relevante, agora, é como a advocacia brasileira vai organizar esse uso com método, segurança e responsabilidade.
A mesma pesquisa aponta que 84,3% dos respondentes percebem aumento de produtividade com a IA. O número confirma algo que muitos profissionais já experimentam na prática. Ferramentas de inteligência artificial podem acelerar pesquisa, estruturar argumentos, revisar textos, organizar informações, resumir documentos e sugerir caminhos iniciais de análise. Em rotinas jurídicas cada vez mais pressionadas por volume, prazo e complexidade, esse ganho é real.
Mas produtividade não pode ser confundida com delegação cega.
O dado mais importante talvez esteja na confiança. Segundo a AASP, 75,4% dos respondentes afirmam confiar nas respostas da IA, desde que revisem. Esse “desde que” é a fronteira entre uma advocacia que usa tecnologia com maturidade e uma prática que transfere responsabilidade para a ferramenta. A inteligência artificial pode apoiar o raciocínio jurídico, mas não responde pelo documento, não assume dever profissional e não substitui a leitura crítica de quem assina.
O uso mais frequente da IA reforça essa necessidade de cuidado. Entre as pessoas que utilizam tecnologia no trabalho jurídico, 88,9% a aplicam em pesquisa jurídica e 86,5% na redação de peças ou documentos. Ou seja, a IA não está sendo usada apenas em tarefas periféricas. Ela já atua em etapas centrais da produção jurídica, justamente onde erros podem gerar consequências relevantes para clientes, processos e reputações.
O caso noticiado pelo g1, envolvendo um advogado multado em mais de R$ 30 mil por inserir comandos ocultos de IA em uma petição na Paraíba, mostra que o debate sobre IA na Advocacia não se limita à eficiência. Segundo a reportagem, a Justiça identificou instruções ocultas distribuídas em páginas da peça, incluindo comandos para “ignorar a imparcialidade” e orientações para que o recurso fosse acolhido. O TJPB também registrou que as multas somaram R$ 32,8 mil e que o magistrado classificou a prática como prompt injection.
Esse episódio é extremo, mas serve como alerta. A questão não é condenar o uso de IA por advogados. O problema está em usar tecnologia para tentar manipular fluxos de análise, comprometer a lealdade processual ou burlar a confiança que sustenta o sistema de Justiça. Há uma diferença profunda entre usar IA como apoio técnico e utilizar comandos ocultos para influenciar indevidamente sistemas ou agentes envolvidos no processo.
A pesquisa da AASP mostra que a própria advocacia enxerga riscos. Informações incorretas ou alucinações aparecem como o principal receio, indicado por 54% dos respondentes. Em seguida, vem o uso sem supervisão humana, apontado por 23,2%. Esses dois pontos se conectam diretamente. A alucinação é um risco da ferramenta. A falta de supervisão é um risco do usuário.
No Direito, uma informação falsa não é apenas uma imprecisão. Uma jurisprudência inexistente, um dispositivo legal incorreto, uma tese descontextualizada ou uma referência sem base oficial pode comprometer a qualidade da peça e a confiança no trabalho. O erro técnico sempre existiu, mas a IA aumenta a escala e a velocidade com que ele pode ser produzido.
A IA na Advocacia não elimina o advogado. Ela desloca parte do seu trabalho. Atividades repetitivas, primeiras versões de texto, pesquisas preliminares e organização de informações tendem a ser cada vez mais apoiadas por tecnologia. Ao mesmo tempo, cresce a importância de habilidades que não podem ser simplesmente automatizadas: julgamento, estratégia, escuta, responsabilidade, contextualização e decisão.
A pesquisa mostra que 95,6% dos respondentes esperam mudanças relevantes na profissão nos próximos dez anos. A maioria também admite algum grau de substituição de atividades, embora não veja substituição total do trabalho jurídico. Essa percepção parece equilibrada. A IA deve transformar profundamente a forma de produzir, mas não substitui a responsabilidade profissional que acompanha a advocacia.
Isso exige uma mudança de mentalidade. O advogado não pode ser apenas alguém que “pede” uma peça à ferramenta e revisa superficialmente o resultado. Precisa saber formular bons comandos, checar fontes, comparar entendimentos, validar jurisprudência, adequar linguagem, proteger dados e decidir o que efetivamente deve ser usado. A tecnologia pode entregar velocidade. O advogado precisa entregar critério.
Nos escritórios, essa discussão precisa deixar de ser individual. Não basta cada profissional usar IA do seu jeito. É necessário criar políticas internas, definir quais ferramentas podem ser utilizadas, estabelecer limites para inserção de dados sensíveis, orientar revisões obrigatórias, treinar equipes e registrar boas práticas. Governança não serve para frear inovação. Serve para impedir que a inovação se transforme em risco silencioso.
Para o marketing jurídico, a pesquisa da AASP traz um recado adicional. Escritórios que souberem comunicar seu uso responsável de tecnologia terão uma vantagem reputacional. O mercado não quer apenas advogados mais rápidos. Quer profissionais mais preparados, capazes de combinar eficiência com segurança.
Isso muda a forma como a inovação deve aparecer na comunicação. Dizer que usa IA não basta. Muitas bancas já usam ou usarão. A diferenciação estará em explicar como a tecnologia entra no método de trabalho, quais etapas têm revisão humana, como as informações são protegidas e de que forma a produtividade gera valor real para o cliente.
Também é preciso evitar dois extremos. O primeiro é o entusiasmo vazio, que trata a IA como solução para tudo. O segundo é a resistência automática, que ignora ganhos evidentes de produtividade. Entre esses polos, há um caminho mais sofisticado: adotar tecnologia com responsabilidade, treinar pessoas e preservar o que há de mais importante na advocacia, que é a confiança.
No relacionamento com clientes, essa postura pode fazer diferença. Empresas, famílias e pessoas físicas querem eficiência, mas também querem segurança. Querem saber que o advogado está atualizado, mas não desejam sentir que sua demanda foi entregue a uma ferramenta sem controle. A percepção de valor estará justamente nesse equilíbrio.
Fonte e perfil da pesquisa
A pesquisa “Uso de IA na Advocacia” foi realizada pela AASP, Associação dos Advogados, com 1.149 respostas de associadas e associados, em levantamento quantitativo aplicado entre 14 de maio e 14 de julho de 2026. O perfil da amostra mostra predominância de profissionais com mais de 45 anos, que representam 81,3% dos respondentes. As principais áreas de atuação foram Direito Civil, atuação multidisciplinar, Direito do Trabalho, Família e Sucessões, Direito Empresarial e outras áreas. Em distribuição geográfica, São Paulo concentrou 87,8% das respostas, embora 21 estados tenham sido representados.
Esse perfil deve ser considerado na leitura dos dados. Ainda assim, o retrato apresentado é significativo: a IA já faz parte da prática jurídica brasileira e está sendo usada em atividades centrais. O futuro da advocacia não será definido por quem usa ou não usa tecnologia, mas por quem consegue incorporá-la com responsabilidade.
A IA pode aumentar produtividade. A revisão humana continua sendo o que protege a advocacia.
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